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Planejar a documentação com antecedência evita muito estresse. Foto de Gustavo Fring/Pexels.




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Casais Expatriados na América Latina: Como Viver o Dia a Dia com Vistos Diferentes, Filhos e Duas Culturas

Um guia prático sobre procedimentos, custos e soluções para famílias binacionais que se estabelecem na região

By Estefanía Muriel for Ruta Pantera on 8/10/2026 10:30:37 AM

Cada vez é mais comum encontrar casais em que um dos parceiros possui passaporte colombiano, mexicano ou costarriquenho, enquanto o outro chega com um visto de turista, pronto para permanecer por amor, trabalho remoto ou pelos dois motivos. Viver dessa forma é totalmente possível, mas envolve um nível adicional de organização que casais do mesmo país normalmente não precisam enfrentar: documentação migratória, sistemas tributários duplos, filhos com duas ou três nacionalidades e, em alguns casos, choques culturais que ninguém imaginava antes de fazer as malas.

Este guia aborda os pontos que mais frequentemente geram dúvidas — e dores de cabeça — para casais expatriados que vivem em países como Colômbia, México e Costa Rica, apresentando exemplos concretos de procedimentos, custos aproximados e etapas a seguir.

Aspectos Migratórios: A Primeira Decisão Que Condiciona Todo O Resto

Antes mesmo de pensar em um apartamento, uma escola ou uma conta bancária conjunta, todo casal de diferentes nacionalidades precisa resolver a situação migratória do parceiro estrangeiro. Na Colômbia, por exemplo, o procedimento mais comum é o visto M (Migrante), concedido por meio de um vínculo com um cidadão colombiano e destinado a cônjuges ou parceiros em união estável.

Esse visto tem validade de até três anos, permite que o titular trabalhe em qualquer atividade legal no país e possibilita a solicitação de vistos de dependentes para filhos menores de 25 anos.

O processo exige comprovação do relacionamento: certidão de casamento ou prova de união estável, certificado de movimentos migratórios emitido pela Migración Colombia (autoridade migratória colombiana) e, em alguns casos, uma carta assinada pelo parceiro colombiano descrevendo a convivência do casal.

No México, o processo equivalente é chamado de Residência Temporária por Unidade Familiar e é realizado pelo Instituto Nacional de Migração (INM). Ele permite que cônjuges, parceiros em união estável e filhos menores de cidadãos mexicanos ou residentes permanentes obtenham seu cartão de residência.

Uma das vantagens é que o pedido pode ser feito em um consulado mexicano no exterior ou dentro do México, caso a pessoa já esteja no país com situação migratória regular.

O próprio INM estabelece que esse processo envolve dois pagamentos separados: um pela recepção e análise do pedido e outro pela emissão do documento após a aprovação, com valores atualizados anualmente.

Como referência, a mudança de residência temporária para permanente custava aproximadamente 1.780 pesos mexicanos para o primeiro pagamento e 6.789 pesos para o segundo no final de 2025.

A Costa Rica segue uma lógica semelhante, mas com suas próprias particularidades. A Direção Geral de Migração e Estrangeiros exige que ambos os cônjuges participem juntos de uma entrevista de “ratificação de dados”, além da apresentação da certidão de casamento do Registro Civil costarriquenho — registrada no país mesmo quando o casamento ocorreu no exterior — e comprovantes de pagamento.

Em 2025, esses procedimentos tiveram um custo aproximado de 250 dólares entre o pedido de residência legal e a mudança de categoria migratória, segundo a Direção Geral de Migração e Estrangeiros da Costa Rica.

Após a aprovação da residência, o estrangeiro deve se registrar na Caixa Costarriquenha de Seguro Social para manter sua situação regular.

O Que Fazer Na Prática:

Desde o primeiro mês de convivência formal, reúna provas do relacionamento: fotografias, passagens de viagens juntos, contratos de aluguel em nome dos dois, mensagens e documentos compartilhados. A maioria dos países exige comprovar que a relação é verdadeira, não apenas apresentar uma certidão de casamento.

Inicie o processo de residência antes do vencimento de qualquer visto de turista. Alterar a situação migratória quando a pessoa já está irregular quase sempre custa mais e demora mais do que iniciar o processo no momento adequado.

Casamento, Filhos e Nacionalidade: O Que Cada Criança Herda

Um dos pontos que mais surpreendem muitos casais expatriados é como as leis latino-americanas são favoráveis em relação à nacionalidade dos filhos.

A maioria dos países da região aplica o princípio de jus soli, ou seja, concede nacionalidade a qualquer criança nascida em seu território, independentemente da situação migratória dos pais.

O México é um exemplo claro dessa política, com poucas exceções, como filhos de diplomatas estrangeiros. Ao mesmo tempo, praticamente todos os países da região reconhecem o princípio de jus sanguinis, que permite transmitir a nacionalidade aos filhos de seus cidadãos nascidos no exterior.

Na prática, uma criança de um casal binacional nascida em Bogotá, Cidade do México ou San José frequentemente terá duas nacionalidades desde o nascimento: a do país onde nasceu e a do pai ou mãe estrangeiro, caso o país de origem também permita dupla nacionalidade.

Isso oferece vantagens reais: múltiplos passaportes, possibilidade de estudar ou trabalhar sem restrições em ambos os países e uma rede de segurança caso a família decida se mudar no futuro.

No entanto, também traz obrigações administrativas que devem ser resolvidas rapidamente: registrar o nascimento no consulado do pai ou mãe estrangeiro, obter o passaporte desse país e, em alguns casos, decidir qual documento a criança usará para viajar e evitar problemas migratórios nos aeroportos.

Uma questão mais delicada surge quando o relacionamento termina e cada pai deseja que a criança viva em um país diferente. Nesse caso entra em cena a Convenção de Haia de 1980 sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças, ratificada por 17 países latino-americanos.

Ela estabelece um procedimento para o retorno rápido de uma criança removida ou mantida sem o consentimento do outro responsável. Paralelamente, a região possui a Convenção Interamericana sobre Restituição Internacional de Menores, em vigor em 14 países americanos.

O Que Fazer Na Prática:

Se seus filhos possuem passaportes de mais de um país, mantenha cópias digitais de todos os documentos de identidade e viagens em um local acessível para ambos os pais.

Se viajar sozinho com a criança, leve sempre uma autorização reconhecida em cartório do outro responsável. Muitos países exigem esse documento nas fronteiras, embora nem sempre ele seja solicitado.

Se o casal se separar, qualquer mudança do país de residência da criança deve ser acordada por escrito antes da viagem. Levar uma criança para outro país sem o consentimento do outro responsável pode desencadear mecanismos internacionais de restituição e processos legais longos e caros em ambos os países.

Filhos criados entre dois idiomas e duas culturas: a criação bicultural é um dos maiores desafios —e aprendizados— para as famílias de expatriados. Foto de Junery Docto/Pexels.

Vida Cotidiana: Cultura, Dinheiro e Saúde Sob o Mesmo Teto

Além da documentação, a vida diária de um casal de diferentes países envolve ajustes constantes: decidir qual idioma será falado em casa, como dividir as visitas às famílias de origem ou quem assumirá determinados papéis com os parentes do parceiro.

Essas diferenças culturais raramente são resolvidas de uma única vez; normalmente exigem conversas abertas sobre expectativas na criação dos filhos, responsabilidades domésticas e celebrações familiares, em vez de presumir que “tudo se resolverá com o tempo”.

Do ponto de vista financeiro, uma das primeiras perguntas é como declarar impostos quando cada parceiro pode ter obrigações fiscais em um país diferente: seu país de origem e o país onde reside.

A resposta depende dos acordos para evitar a dupla tributação entre os dois países e se o cônjuge estrangeiro mantém renda em seu país de origem. É recomendável consultar um contador familiarizado com ambas as jurisdições antes de apresentar as primeiras declarações fiscais, evitando pagar impostos duas vezes sobre a mesma renda.

A saúde é outro aspecto que não deve ser adiado. Na Costa Rica, por exemplo, estrangeiros com residência aprovada são obrigados — e não apenas têm direito — a se registrar na Caixa Costarriquenha de Seguro Social (CCSS), o que permite acesso ao sistema público de saúde, mas também implica uma contribuição mensal obrigatória.

Nos países onde a inscrição não é automática, muitos casais optam por seguros de saúde internacionais enquanto resolvem seu processo migratório, especialmente se planejam ter filhos ou se um dos parceiros possui uma condição médica preexistente.

Por fim, a aposentadoria exige planejamento antecipado. A região conta com o Acordo Multilateral Ibero-Americano de Seguridade Social, ratificado por países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, El Salvador e República Dominicana.

Esse acordo permite somar (“totalizar”) os períodos de contribuição realizados em diferentes países para ter acesso a aposentadorias por idade, invalidez ou pensão por sobrevivência.

Além desse acordo multilateral, existem dezenas de acordos bilaterais entre países da região com objetivos semelhantes. Se você contribuiu para a seguridade social em mais de um país, vale consultar a instituição responsável pela aposentadoria para verificar se seus anos de trabalho no exterior podem ser incluídos no seu histórico previdenciário.

O Que Fazer Na Prática:

Desde o início, crie uma pasta — física ou digital — com todos os comprovantes de contribuições previdenciárias de cada país onde qualquer um dos dois tenha trabalhado. Esse histórico será exatamente o que será necessário para acessar os acordos de totalização quando chegar o momento da aposentadoria.

Problemas Comuns: Dependência Migratória, Choque Cultural e O Que Fazer Se o Relacionamento Terminar

Um dos problemas mais citados por advogados de imigração na região é a dependência migratória: quando a situação legal de um dos parceiros depende completamente da continuidade do relacionamento com o outro.

Na Colômbia, por exemplo, as próprias normas reconhecem essa vulnerabilidade ao estabelecer que o visto está ligado à validade do vínculo familiar ou afetivo. Isso significa que uma mudança no relacionamento pode afetar diretamente a autorização migratória do cônjuge estrangeiro.

Essa situação pode criar desequilíbrios de poder dentro do casal, especialmente quando também existe dependência financeira.

Por isso, é importante conhecer desde o início quais proteções legais existem caso o relacionamento se deteriore ou ocorra violência doméstica. A maioria dos países latino-americanos possui mecanismos de proteção para vítimas de violência familiar que independem da situação migratória da pessoa afetada, além de caminhos para regularizar a permanência sem depender do parceiro que iniciou o processo migratório em casos comprovados de abuso.

Se você estiver nessa situação, procure diretamente as autoridades de proteção familiar ou organizações de apoio a migrantes no país onde mora. Não espere a aprovação da residência para buscar ajuda.

Outros problemas são mais cotidianos, mas igualmente desgastantes: a barreira do idioma em procedimentos oficiais, o isolamento social do parceiro estrangeiro enquanto aprende os costumes locais e o estresse acumulado por atrasos migratórios que às vezes se prolongam por vários meses além do esperado.

Nenhum desses desafios pertence exclusivamente a um país específico; eles fazem parte do “custo emocional” que muitos casais expatriados não conseguem prever completamente antes da mudança.

O Que Fazer Na Prática:

Se seu parceiro estrangeiro ainda não possui autorização de trabalho, priorize atividades que ajudem a construir uma rede social independente do relacionamento: aulas de idiomas, grupos de expatriados, trabalhos voluntários ou outras atividades comunitárias.

Isso reduz o isolamento enquanto a documentação está sendo processada.

Se o relacionamento enfrentar dificuldades, procure orientação migratória independente antes de tomar decisões sobre mudança de país, divisão de bens ou transferência dos filhos para outro lugar. Agir sem esse cuidado pode complicar tanto os processos migratórios quanto as questões de guarda.

A Chave Não É O País, É O Planejamento

Construir uma família entre dois países na América Latina é, na prática, muito mais viável do que inicialmente parece. A região oferece sistemas migratórios relativamente acessíveis para cônjuges, regras amplas de nacionalidade para crianças e acordos internacionais que protegem tanto menores quanto trabalhadores migrantes durante a aposentadoria.

O que diferencia uma experiência tranquila de uma cheia de dificuldades é a preparação: iniciar os processos migratórios no momento certo, documentar o relacionamento desde o início e não adiar conversas difíceis sobre dinheiro, criação dos filhos e o que aconteceria caso algo desse errado.

Para dúvidas específicas sobre cada situação, é altamente recomendável consultar um advogado especializado em imigração familiar no país onde você pretende morar, pois os requisitos e valores dos processos são atualizados com frequência.

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